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Fraternidade Espírita Ramatis

A matéria é somente aquilo que conseguimos tocar?

Espiritismo · 11 de setembro de 2026

Capa do texto “A matéria é somente aquilo que conseguimos tocar?”

Aquilo que não percebemos deixa de existir?

Nós conhecemos o mundo através dos sentidos.

Vemos.

Ouvimos.

Tocamos.

Sentimos sabores e odores.

E, naturalmente, construímos grande parte da nossa compreensão da realidade a partir dessas experiências.

Mas existe uma pergunta importante:

será que a realidade termina exatamente onde terminam os nossos sentidos?

É sobre esse ponto que Allan Kardec nos convida a refletir quando inicia, em O Livro dos Espíritos, o estudo das propriedades da matéria.

Depois de estabelecer a distinção entre Espírito e matéria, ele pergunta, na questão 29:

A ponderabilidade — isto é, a possibilidade de a matéria apresentar peso — seria uma característica essencial de toda matéria?

A resposta apresentada pela obra é interessante.

Para a matéria tal como normalmente a conhecemos, sim.

Entretanto, Kardec admite, dentro da concepção espírita, estados mais sutis da matéria que seriam imponderáveis para nós.

Isso amplia significativamente a discussão.

Nem toda realidade precisa ser acessível aos nossos sentidos

No estudo anterior vimos que O Livro dos Espíritos apresenta o chamado fluido universal como um elemento relacionado à matéria, porém em condição mais sutil.

Agora Kardec aprofunda essa ideia.

A matéria que conhecemos diretamente é aquela acessível aos nossos instrumentos e sentidos.

Mas a Doutrina propõe que possam existir formas ou estados que escapam à percepção humana ordinária.

Essa reflexão exige equilíbrio.

Não significa que toda coisa invisível que alguém imaginar automaticamente exista.

Também não significa que devemos transformar qualquer hipótese espiritual em fato científico.

O ensinamento é mais simples:

nossos sentidos possuem limites.

E reconhecer limites não é abandonar a razão.

É justamente utilizá-la com humildade.

Nossos sentidos não são a medida absoluta da realidade

Pense em algo muito simples.

Existem sons que determinados animais percebem e nós não ouvimos.

Existem faixas de radiação que nossos olhos não enxergam diretamente.

Existem estruturas tão pequenas que dependemos de instrumentos para estudá-las.

Ou seja:

mesmo no estudo do mundo físico, aquilo que os olhos veem e as mãos tocam nunca representou toda a realidade conhecida.

A humanidade ampliou sua percepção criando instrumentos.

Microscópios.

Telescópios.

Sensores.

Equipamentos de medição.

Cada nova ferramenta aumentou nossa capacidade de observar fenômenos que antes escapavam à experiência direta.

Isso nos ensina uma atitude importante:

não confundir “eu não percebo” com “isso não existe”.

Mas também devemos evitar o erro contrário:

não confundir “eu imagino” com “isso está comprovado”.

Entre a negação precipitada e a credulidade sem critério existe um caminho muito espírita:

estudo, observação, razão e prudência.

Uma matéria primitiva?

Na questão 30, Kardec pergunta:

A matéria é formada de um só ou de muitos elementos?

A resposta apresentada em O Livro dos Espíritos sustenta a existência de um elemento primitivo, do qual decorreriam diferentes transformações.

Nas questões seguintes, a obra relaciona as diversas propriedades materiais às modificações e combinações desse elemento.

Aqui é importante fazermos uma observação responsável.

Estamos estudando uma obra publicada no século XIX.

Portanto, quando Kardec utiliza expressões e exemplos relacionados à constituição da matéria, precisamos lê-los dentro do contexto histórico e filosófico da Codificação.

Não devemos afirmar que a física ou a química atuais tenham simplesmente confirmado todos esses conceitos espíritas.

Seria misturar campos diferentes e ir além do que podemos demonstrar.

Nosso propósito nesta série é compreender o que a obra ensina, preservando a honestidade intelectual.

Por que as coisas têm propriedades diferentes?

Na questão 31, Kardec pergunta sobre a origem das diversas propriedades da matéria.

A resposta atribui essas diferenças às modificações sofridas pelas partículas elementares em suas combinações.

Em seguida, na questão 32, ele pergunta sobre:

cores;

odores;

sabores;

sons;

e outras características dos corpos.

A resposta apresentada destaca também uma questão muito interessante:

nossa percepção depende dos órgãos através dos quais percebemos.

Kardec observa que uma mesma coisa não é necessariamente percebida da mesma maneira por todas as pessoas.

Isso nos conduz a uma reflexão muito maior.

Existe aquilo que está diante de nós.

E existe também a maneira como conseguimos percebê-lo.

Percepção não é necessariamente realidade completa

Essa ideia vale para a matéria.

Mas também pode nos ensinar muito sobre a convivência humana.

Quantas vezes duas pessoas vivem o mesmo acontecimento e saem dele com percepções completamente diferentes?

Uma conversa que para alguém pareceu normal pode ter machucado outra pessoa.

Uma atitude que consideramos generosa pode ter sido compreendida de maneira diferente por quem a recebeu.

Uma situação que julgamos simples pode representar enorme sofrimento para alguém.

Isso não significa que toda percepção esteja necessariamente correta.

Significa que precisamos aprender a considerar que nosso ponto de vista não é o único possível.

Talvez aqui encontremos uma bela aplicação moral do estudo de hoje.

Assim como os sentidos físicos possuem limites, nossa percepção emocional e moral também pode ser limitada.

Quantas vezes julgamos vendo apenas uma parte?

Às vezes encontramos alguém irritado e pensamos:

“Que pessoa difícil.”

Mas não sabemos o que aconteceu antes daquele encontro.

Vemos alguém afastado e concluímos:

“É indiferente.”

Talvez esteja sofrendo.

Vemos alguém cometer um erro e pensamos:

“Eu jamais faria isso.”

Mas desconhecemos a história daquela alma.

Nós enxergamos um instante.

Deus conhece a caminhada.

Por isso, o Evangelho nos convida tantas vezes à indulgência.

Antes de condenar alguém, talvez precisemos recordar:

posso estar percebendo apenas uma parte da realidade.

O perigo de transformar nossa percepção em verdade absoluta

Há algo muito humano em acreditar que aquilo que percebemos corresponde exatamente à totalidade do real.

Isso acontece nas relações.

Nas discussões.

Na religião.

Na política.

Na família.

Até dentro de uma Casa Espírita.

Às vezes não dizemos:

“Eu compreendi dessa maneira.”

Dizemos:

“É assim.”

E então começa o conflito.

A humildade espiritual nos ensina uma frase extremamente poderosa:

“Talvez exista algo que eu ainda não esteja conseguindo enxergar.”

Essa frase não elimina nossas convicções.

Apenas diminui nossa arrogância.

A realidade é maior do que nossas ferramentas atuais

O estudo das propriedades da matéria, em Kardec, também nos faz perceber quanto o ser humano ainda está em aprendizado.

Cada época acredita ter alcançado grandes conhecimentos.

E realmente alcança.

Mas, depois, novas descobertas ampliam o horizonte.

Isso aconteceu inúmeras vezes na história.

Portanto, conhecer não significa possuir a última palavra.

Conhecimento verdadeiro deveria caminhar junto com abertura para revisão.

Essa atitude é especialmente importante no Espiritismo.

Não devemos transformar conceitos doutrinários em desculpa para afirmar, sem evidências, que determinado conhecimento científico já “provou o Espiritismo”.

O próprio espírito investigativo de Kardec recomenda cautela.

A fé raciocinada não necessita de exageros para se sustentar.

“Tudo está em tudo”

Na questão 33 aparece uma expressão curiosa:

“Tudo está em tudo.”

Dentro daquele contexto, ela se refere à ideia apresentada pela obra de que diferentes propriedades poderiam surgir das modificações de um elemento material primitivo.

Essa expressão não deve ser retirada do contexto e utilizada como explicação universal para qualquer fenômeno.

Kardec está discutindo especificamente as propriedades da matéria.

Esse cuidado é importante porque frases isoladas podem adquirir sentidos que o texto original não lhes atribuiu.

Estudar a Doutrina também significa respeitar o contexto.

E as moléculas?

Na questão 34, Kardec entra ainda mais profundamente na concepção que possuía sobre a estrutura da matéria e pergunta se as moléculas teriam forma determinada.

Novamente, precisamos ler esse trecho dentro da linguagem científica disponível no século XIX.

Mais importante para nosso propósito de hoje é observar o método:

Kardec pergunta.

Recebe uma resposta.

Aprofunda.

Questiona novamente.

Compara.

Ele não foge da investigação.

Esse comportamento deveria inspirar todo estudante espírita.

A Doutrina não precisa de pessoas que tenham medo de perguntar.

Precisa de pessoas capazes de estudar com seriedade.

Ramatís e o risco de ficarmos presos apenas aos sentidos

Como leitura complementar, encontramos em A Missão do Espiritismo, psicografada por Hercílio Maes, uma crítica de Ramatís ao excesso de apego às manifestações exteriores da religião.

Ele chama atenção para o risco de permanecermos presos ao que impressiona os sentidos, esquecendo a transformação interior.

Essa reflexão dialoga com nosso estudo.

Os sentidos são importantes.

O mundo material é importante.

Mas a vida espiritual não pode ser reduzida apenas àquilo que impressiona nossos olhos.

A verdadeira experiência religiosa precisa alcançar a consciência.

Ramatís insiste na necessidade do culto interno do Espírito, isto é, uma espiritualidade capaz de produzir transformação moral.

Ver além não significa enxergar fenômenos

Quando dizemos “ver além”, não estamos necessariamente falando de mediunidade, vidência ou percepção espiritual.

Existe uma maneira muito mais simples de ampliar nossa visão.

É aprender a enxergar além da aparência.

Diante de uma pessoa difícil, perceber um Espírito em aprendizado.

Diante de um erro, reconhecer uma oportunidade de correção.

Diante de uma diferença, encontrar alguém que também deseja ser compreendido.

Diante da matéria, perceber um instrumento.

Diante da vida, enxergar uma escola.

Talvez seja esse um dos sentidos mais importantes de desenvolvermos uma visão espiritual.

O Evangelho nos ensina a olhar além das aparências

Jesus frequentemente enxergava onde os outros apenas julgavam.

Onde muitos viam o pecador, Ele enxergava possibilidade de renovação.

Onde enxergavam alguém socialmente desprezado, Ele reconhecia um irmão.

Onde havia condenação, oferecia oportunidade.

Isso não significa aprovar o erro.

Significa separar o erro daquele que erra.

É possível corrigir sem humilhar.

É possível discordar sem odiar.

É possível reconhecer uma falha sem reduzir uma pessoa inteira àquela falha.

Esse talvez seja um dos grandes exercícios espirituais da nossa caminhada:

aprender a enxergar mais profundamente.

Um exercício para hoje

Escolha uma pessoa com quem você esteja tendo alguma dificuldade.

Antes de pensar no erro dela, pergunte:

“O que talvez eu ainda não esteja enxergando nessa situação?”

Não significa automaticamente concluir que você está errado.

Apenas tente ampliar o olhar.

Depois pergunte:

“Se Jesus estivesse diante dessa pessoa, como Ele a trataria?”

Talvez com firmeza.

Talvez estabelecendo limites.

Mas certamente sem ódio.

Sem desejo de vingança.

Sem prazer em humilhar.

Faça então uma pequena mudança na maneira de olhar essa pessoa.

Às vezes a transformação começa não pelo comportamento externo, mas pelo modo como passamos a enxergar o outro.

Nem tudo aquilo que é importante pode ser pesado

Há uma aplicação muito bonita que podemos retirar desse estudo.

Nós vivemos cercados por coisas que conseguimos medir.

Dinheiro.

Peso.

Distâncias.

Tempo.

Objetos.

Patrimônio.

Mas existem algumas das realidades mais importantes da nossa existência que não colocamos sobre uma balança.

Quanto pesa um gesto de perdão?

Qual é a massa de uma amizade verdadeira?

Quanto espaço ocupa uma prece?

Qual é o tamanho da esperança que impede alguém de desistir?

Como medir o amor de uma mãe por um filho?

Essas perguntas não são científicas.

São reflexões.

E nos recordam que nossa existência não pode ser reduzida apenas ao mensurável.

O invisível também pode produzir efeitos visíveis

O amor não é um objeto.

Mas suas consequências podem transformar uma vida.

O ressentimento não pode ser colocado sobre uma mesa.

Mas pode destruir relacionamentos.

A esperança não é pesada numa balança.

Mas pode sustentar alguém durante anos de dificuldade.

Uma ideia não é uma pedra.

Mas ideias mudaram a história da Humanidade.

Portanto, mesmo em nossa experiência cotidiana, já sabemos que nem tudo que produz efeitos importantes precisa ser percebido como um objeto material.

Isso não prova, por si só, as realidades espirituais.

Mas nos ensina a não reduzir toda a existência àquilo que podemos tocar.

Para guardar no coração

As questões 29 a 34 de O Livro dos Espíritos começam tratando das propriedades da matéria.

Mas podem nos deixar uma lição que vai muito além.

Nossos sentidos têm limites.

Nossa compreensão também.

Aquilo que enxergamos pode não representar a totalidade.

Por isso, diante do Universo:

humildade.

Diante do conhecimento:

estudo.

Diante das afirmações extraordinárias:

prudência.

Diante do próximo:

indulgência.

E diante de nós mesmos:

vontade sincera de aprender.

Talvez amadurecer espiritualmente seja também aprender a dizer:

“Existe mais do que aquilo que consigo perceber agora.”

E continuar caminhando.

Com razão.

Com fé.

Com responsabilidade.

E, acima de tudo, com amor.


Base doutrinária principal:
Allan Kardec — O Livro dos Espíritos
Parte Primeira — Das Causas Primárias
Capítulo II — Dos elementos gerais do Universo
Questões 29 a 34 — Propriedades da matéria

Leitura complementar:
Allan Kardec — A Gênese — estudos sobre o fluido cósmico universal e os diferentes estados atribuídos à matéria na concepção espírita.

Ramatís / Hercílio Maes — A Missão do Espiritismo — reflexão sobre a necessidade de superar uma religiosidade limitada às impressões exteriores e desenvolver o “culto interno do Espírito”.

Observação de estudo:
As explicações sobre a constituição da matéria presentes na Codificação devem ser compreendidas em seu contexto histórico e doutrinário. Não é adequado identificá-las automaticamente com conceitos da física ou da química contemporâneas sem demonstração específica.

Série: O Livro dos Espíritos para a Vida — Episódio 8

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