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Fraternidade Espírita Ramatis

Espírito e matéria: somos apenas o corpo que vemos?

Espiritismo · 10 de setembro de 2026

Capa do texto “Espírito e matéria: somos apenas o corpo que vemos?”

Somos o corpo ou utilizamos um corpo?

Essa pergunta modifica profundamente nossa maneira de olhar para a existência.

Quando nos vemos no espelho, enxergamos um corpo.

Ele nasce.

Cresce.

Transforma-se.

Envelhece.

E um dia deixa de funcionar.

Mas será que tudo aquilo que somos se resume a essa estrutura material?

A Doutrina Espírita responde que não.

Antes mesmo de aprofundarmos essa questão em O Livro dos Espíritos, encontramos em O Evangelho segundo o Espiritismo uma orientação extremamente equilibrada:

precisamos cuidar do corpo e do Espírito.

Kardec não apresenta o corpo como inimigo da alma.

Ao contrário.

No capítulo XVII, no estudo “Cuidar do corpo e do Espírito”, encontramos a orientação de que ambos precisam receber a atenção necessária.

O corpo é instrumento.

O Espírito é o ser que utiliza esse instrumento durante a experiência terrena.

Compreender essa relação é muito diferente de desprezar a matéria.

O que é matéria?

Na questão 22 de O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta sobre a definição de matéria.

Normalmente pensamos em matéria como aquilo que ocupa espaço, pode ser tocado ou percebido pelos nossos sentidos.

Mas a resposta apresentada amplia essa ideia.

Segundo a obra, podem existir estados da matéria tão sutis que nossos sentidos não conseguem percebê-los.

Em seguida encontramos uma definição importante:

a matéria é instrumento de que o espírito se serve e sobre o qual exerce sua ação.

Isso muda nossa perspectiva.

O corpo não é a totalidade do ser.

É um instrumento temporário através do qual o Espírito experimenta a vida material.

E o que é espírito?

Na questão 23, Kardec pergunta:

“Que é o espírito?”

A resposta é:

“O princípio inteligente do Universo.”

Aqui precisamos fazer uma distinção importante para não confundirmos os termos.

Nesse trecho, quando Kardec utiliza a palavra espírito, está falando do princípio inteligente, e não especificamente de uma pessoa desencarnada.

Mais adiante na Codificação, a palavra Espírito também será utilizada para designar os seres inteligentes individualizados.

Mas aqui estamos estudando os elementos fundamentais do Universo.

Temos, portanto, duas realidades apresentadas como distintas:

matéria e espírito.

Inteligência e espírito são exatamente a mesma coisa?

Na questão 24, Kardec pergunta se espírito seria sinônimo de inteligência.

A resposta esclarece que a inteligência é um atributo essencial do espírito.

Podemos pensar de maneira simples:

a inteligência manifesta uma propriedade do princípio espiritual.

O ponto fundamental do ensino é que a inteligência não é apresentada apenas como uma propriedade da matéria.

Na concepção espírita de Kardec, existe um princípio inteligente distinto do princípio material.

Espírito e matéria são diferentes

A questão 25 é particularmente importante.

Kardec pergunta se o espírito seria independente da matéria ou apenas uma propriedade dela.

A resposta apresentada é clara:

são distintos um do outro.

Entretanto, durante nossa experiência no mundo físico, Espírito e matéria se relacionam.

É através dessa união que podemos:

pensar e agir no mundo;

aprender;

estabelecer relações;

trabalhar;

experimentar desafios;

exercitar escolhas;

desenvolver sentimentos;

e realizar nossa caminhada de crescimento.

O corpo torna possível uma experiência que o Espírito necessita naquele momento de sua evolução.

O corpo não é uma prisão a ser odiada

Às vezes, quando ouvimos que somos Espíritos, podemos cair em outro extremo:

desvalorizar o corpo.

Isso também não corresponde ao equilíbrio encontrado no Evangelho.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, no capítulo XVII, encontramos uma orientação muito bonita:

amar a alma e também cuidar do corpo, porque ele é instrumento dela.

Isso é profundamente atual.

Cuidar da saúde.

Respeitar os limites físicos.

Descansar.

Alimentar-se adequadamente.

Buscar tratamento quando necessário.

Evitar excessos.

Tudo isso também faz parte da responsabilidade espiritual.

Não somos somente o corpo.

Mas enquanto estamos encarnados, precisamos dele para cumprir nossa experiência.

Desprezar o instrumento seria falta de cuidado com a oportunidade recebida.

Nem materialismo, nem desprezo pela matéria

O equilíbrio espírita não está nos extremos.

De um lado, temos a ideia de que somente a matéria existe.

Do outro, poderíamos cair na ideia de que, por sermos Espíritos, a vida material não possui importância.

Kardec nos conduz a uma terceira compreensão:

somos seres espirituais vivendo temporariamente uma experiência corporal.

E essa experiência possui finalidade.

Estamos aqui para aprender.

Para trabalhar.

Para conviver.

Para amar.

Para reparar.

Para desenvolver inteligência e moralidade.

Para fazer escolhas.

A matéria, portanto, não é um erro da Criação.

É também campo de aprendizado.

Deus, espírito e matéria

Na questão 27, Kardec pergunta se existem dois elementos gerais no Universo: matéria e espírito.

A resposta afirma que sim e acrescenta:

acima de tudo está Deus, o Criador.

A obra utiliza então a expressão “trindade universal”, referindo-se a:

Deus, espírito e matéria.

É importante compreender essa expressão dentro do contexto específico da questão.

Kardec não está se referindo aqui à formulação teológica tradicional da Trindade cristã.

Ele está apresentando, dentro da estrutura filosófica da obra, Deus acima dos dois princípios gerais que observamos: o espiritual e o material.

E o que é o fluido universal?

Na mesma questão surge outro conceito que terá grande importância nos estudos posteriores:

o fluido universal.

Dentro da cosmologia apresentada por O Livro dos Espíritos, ele exerce uma função intermediária entre espírito e matéria.

Kardec descreve esse fluido como suscetível de inúmeras combinações e relacionado à variedade das formas materiais.

Aqui é importante termos prudência.

Estamos tratando de um conceito próprio da teoria espírita apresentada na Codificação.

Não devemos simplesmente identificar o “fluido universal” com algum conceito da física contemporânea ou dizer que a ciência já comprovou aquilo que Kardec descreveu.

São campos e terminologias diferentes.

Essa distinção é importante para mantermos nosso estudo sério e responsável.

Nem tudo pode ser explicado pelas palavras

Na questão 28 aparece novamente um problema que já encontramos anteriormente:

os limites da linguagem humana.

Kardec pergunta se seria melhor utilizar outras expressões para espírito e matéria.

A resposta chama atenção para as dificuldades que surgem quando pessoas empregam as mesmas palavras com sentidos diferentes.

Isso acontece muito em assuntos espirituais.

Alma.

Espírito.

Energia.

Fluido.

Consciência.

São palavras frequentemente utilizadas de maneiras diferentes.

Por isso, antes de discutirmos sobre determinado conceito, precisamos perguntar:

O que exatamente estamos chamando por esse nome?

Compreender os termos evita muita confusão.

O que tudo isso muda na minha vida?

Essa é a pergunta que queremos fazer em todos os textos desta série.

Porque estudar Espírito e matéria apenas como conceitos filosóficos seria interessante.

Mas insuficiente.

Se somos mais do que o corpo, então algumas prioridades começam a mudar.

O corpo envelhece.

A aparência muda.

Os bens materiais permanecem aqui.

As posições sociais terminam.

Mas, segundo a Doutrina Espírita, o Espírito prossegue levando consigo aquilo que realmente construiu em si mesmo.

Conhecimento.

Sentimentos.

Virtudes.

Imperfeições ainda não vencidas.

Experiências.

Afetos.

Consequências de suas escolhas.

Então podemos perguntar:

Quanto tempo tenho dedicado ao desenvolvimento daquilo que não termina com o corpo?

Cuidamos muito do exterior. E do interior?

Nossa sociedade dedica enorme atenção à aparência.

Ao corpo.

Ao patrimônio.

À imagem.

Ao sucesso.

Nada disso precisa ser condenado.

O problema está em transformar instrumentos temporários na finalidade principal da existência.

Podemos cuidar do corpo e esquecer a alma.

Podemos aumentar o patrimônio e empobrecer os afetos.

Podemos conquistar reconhecimento e perder a paz.

Podemos cuidar da aparência exterior enquanto acumulamos ressentimentos, orgulho e intolerância.

É aí que o estudo de hoje deixa de ser abstrato.

Ele nos convida a perguntar:

Como está o meu Espírito?

Ramatís e o Espírito imortal

Como leitura complementar, Ramatís, em A Missão do Espiritismo, psicografada por Hercílio Maes, apresenta o Espiritismo como doutrina voltada ao esclarecimento do Espírito imortal.

Ao tratar da mediunidade, Ramatís também a relaciona ao Espírito e não simplesmente à matéria, reforçando, dentro de sua obra, essa compreensão da criatura humana como realidade espiritual utilizando temporariamente um organismo físico.

Mas o próprio Ramatís chama atenção para algo ainda mais importante:

o conhecimento espiritual precisa produzir iluminação moral.

Ou seja:

saber que somos Espíritos não basta.

Precisamos viver como Espíritos conscientes de nossa responsabilidade.

Jesus nos leva da teoria à vida

O Evangelho nos devolve sempre ao essencial.

De pouco adianta afirmarmos que acreditamos na imortalidade do Espírito se continuamos vivendo apenas para aquilo que termina.

De pouco adianta conhecermos conceitos espirituais se não aprendemos a amar.

Jesus não nos pede abandono irresponsável da vida material.

Ele nos ensina a utilizá-la sem permitir que ela domine nossa consciência.

Trabalhar.

Cuidar da família.

Honrar compromissos.

Cuidar do corpo.

Administrar os recursos materiais.

Tudo isso faz parte da experiência humana.

Mas precisamos recordar que somos maiores do que aquilo que possuímos.

Um exercício espiritual para hoje

Observe-se diante do espelho por alguns instantes.

Veja seu rosto.

Seu corpo.

As marcas do tempo.

Depois faça silenciosamente esta pergunta:

Quem está olhando através desses olhos?

Você é apenas aquilo que aparece no espelho?

Ou existe uma história interior feita de sentimentos, escolhas, aprendizados, sonhos, dificuldades e conquistas que nenhum espelho consegue mostrar?

Depois pergunte:

O que estou fazendo hoje pelo Espírito que sou?

Talvez a resposta seja:

perdoar alguém;

estudar;

orar;

controlar uma reação;

corrigir um comportamento;

pedir desculpas;

fazer o bem;

cuidar melhor do próprio corpo;

ou oferecer atenção a quem precisa.

Escolha apenas uma atitude.

E pratique.

Cuidar do Espírito também é cuidar da matéria

Talvez uma das maiores lições deste estudo seja o equilíbrio.

Não precisamos escolher entre corpo e Espírito.

Precisamos compreender a função de cada um.

O corpo é precioso porque permite ao Espírito viver esta experiência.

Mas o Espírito é maior do que o corpo porque sua caminhada não termina quando a matéria deixa de servi-lo.

Por isso:

cuide do corpo sem fazer dele seu único propósito.

Cuide do Espírito sem desprezar o instrumento que recebeu.

A verdadeira espiritualidade não nos afasta da vida.

Ela ensina a vivê-la melhor.

Para guardar no coração

Hoje somos chamados a olhar para nós mesmos de uma maneira diferente.

Não somos apenas um nome.

Não somos apenas uma profissão.

Não somos apenas nossa aparência.

Não somos somente nossos bens.

E, para a Doutrina Espírita, também não somos apenas nosso corpo.

Somos Espíritos em caminhada, utilizando temporariamente a matéria como instrumento de aprendizado.

O corpo merece cuidado.

A vida material merece responsabilidade.

Mas existe algo ainda mais importante sendo construído silenciosamente dentro de nós:

aquilo que estamos nos tornando.

Talvez, ao final de cada dia, uma boa pergunta seja:

O que fiz hoje para cuidar do corpo que recebi e para melhorar o Espírito que sou?


Base evangélica:
Allan Kardec — O Evangelho segundo o Espiritismo
Capítulo XVII — Sede perfeitos
Item 11 — Cuidar do corpo e do Espírito

Base doutrinária principal da série:
Allan Kardec — O Livro dos Espíritos
Parte Primeira — Das Causas Primárias
Capítulo II — Dos elementos gerais do Universo
Questões 21 a 28 — Espírito e matéria

Leitura complementar:
Ramatís / Hercílio Maes — A Missão do Espiritismo — reflexões sobre o Espírito imortal, a relação entre a realidade espiritual e a matéria e a necessidade de iluminação moral.

Série: O Livro dos Espíritos para a Vida — Episódio 7

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