Fraternidade Espírita Ramatis
Como surgiu o Universo? A Criação e a formação dos mundos segundo O Livro dos Espíritos
Espiritismo · 15 de setembro de 2026

De onde veio tudo isso?
Olhe para o céu.
Mesmo sem conhecer profundamente Astronomia, uma pergunta pode surgir naturalmente:
Como tudo isso começou?
De onde vieram os mundos?
As estrelas?
A matéria?
O próprio Universo?
Essas perguntas acompanham a Humanidade desde tempos muito antigos.
Depois de estudar Deus, Espírito, matéria e espaço universal, Allan Kardec inicia o terceiro capítulo de O Livro dos Espíritos justamente com o tema:
Da Criação.
E começa perguntando, na questão 37:
O Universo foi criado ou existe, como Deus, desde toda a eternidade?
A resposta apresentada pela obra afirma que o Universo não poderia ter feito a si mesmo.
Dentro do raciocínio desenvolvido desde as primeiras questões de O Livro dos Espíritos, Deus permanece como a causa primária, enquanto o Universo pertence à Criação.
É novamente a distinção entre:
Criador e Criação.
Deus e o Universo não são a mesma coisa
Nos estudos anteriores vimos que Kardec rejeita a ideia de confundir Deus com o conjunto das coisas criadas.
Aqui essa distinção reaparece.
Se o Universo fosse eterno exatamente da mesma maneira que Deus, pergunta Kardec, em que sentido poderia ser considerado Sua obra?
Para a filosofia apresentada em O Livro dos Espíritos, portanto, o Universo procede da ação criadora divina.
Isso não significa que Kardec pretenda descrever minuciosamente aquilo que teria ocorrido em um determinado “primeiro instante”.
A questão central é outra:
a Criação possui uma causa.
E essa causa, para o pensamento espírita, está em Deus.
“Como Deus criou o Universo?”
Na questão 38, Kardec faz exatamente essa pergunta.
A resposta utiliza uma expressão simples:
pela Sua vontade.
E recorda a imagem bíblica:
“Faça-se a luz.”
Não precisamos interpretar essas palavras como se descrevessem um procedimento físico detalhado.
O sentido apresentado no texto está relacionado ao poder criador de Deus.
Isso é importante porque, ao longo da história, linguagem religiosa e linguagem científica muitas vezes foram tratadas como se tivessem obrigatoriamente de funcionar da mesma maneira.
Nem sempre é assim.
Um texto religioso pode transmitir significado através de símbolos, imagens e alegorias.
Uma descrição científica procura explicar fenômenos através de observação, modelos, medições e investigação.
Confundir esses campos pode gerar conflitos desnecessários.
A Bíblia precisa ser lida literalmente?
Esse tema aparece tanto em Kardec quanto em Ramatís.
Em A Missão do Espiritismo, psicografada por Hercílio Maes, Ramatís comenta a narrativa bíblica dos seis dias da Criação e a interpreta de maneira alegórica, relacionada a longos períodos de transformação.
Sua reflexão é clara ao rejeitar a leitura ingênua de que toda a formação do mundo precisaria ter ocorrido em seis dias de vinte e quatro horas.
Esse entendimento dialoga com o próprio método de Kardec.
Mais adiante em O Livro dos Espíritos, ao examinar a narrativa bíblica da Criação, Kardec também chama atenção para o caráter alegórico de determinadas passagens.
A espiritualidade não precisa ter medo de reconhecer símbolos.
Um símbolo não perde necessariamente seu valor espiritual por não constituir uma descrição científica literal.
Como se formariam os mundos?
Na questão 39, Kardec pergunta:
“Poderemos conhecer o modo de formação dos mundos?”
A resposta apresentada diz que, até onde seria possível compreender, os mundos se formariam pela condensação da matéria disseminada no espaço.
Essa é uma das passagens em que precisamos manter a mesma prudência adotada nos estudos anteriores.
Estamos lendo uma obra publicada no século XIX.
Nosso objetivo é compreender fielmente o pensamento exposto na Codificação.
Não devemos retirar uma frase de Kardec e afirmar automaticamente:
“A ciência moderna comprovou exatamente isso.”
Quando quisermos discutir os atuais modelos científicos de formação do Universo, estrelas ou planetas, precisaremos consultar as fontes científicas adequadas.
Uma coisa é estudar a cosmologia apresentada na obra espírita.
Outra é estudar a cosmologia científica contemporânea.
Podem existir pontos que despertem comparações interessantes, mas essas comparações precisam ser feitas com rigor.
A fé raciocinada não precisa de afirmações exageradas.
Kardec pergunta — e isso é tão importante quanto a resposta
Há um aspecto que merece nossa atenção.
Observe a postura de Kardec.
Ele pergunta:
Podemos conhecer?
Ele não parte da pretensão de já possuir todas as respostas.
Esse comportamento aparece repetidamente em O Livro dos Espíritos.
Kardec questiona.
Aprofunda.
Reconhece limites.
E, quando uma explicação ultrapassa nossa capacidade, isso também aparece no texto.
Essa atitude deveria inspirar nosso modo de estudar a espiritualidade.
Não precisamos ter resposta para tudo.
Podemos aprender a dizer:
“Isto é o que a obra ensina.”
“Isto é uma interpretação.”
“Isto ainda não sabemos.”
Há muita honestidade espiritual nessas três frases.
E os cometas?
Na questão 40, Kardec pergunta se os cometas poderiam representar matéria em processo de condensação e mundos em formação.
A resposta reflete a compreensão cosmológica presente naquele contexto histórico e também rejeita as superstições populares que atribuíam aos cometas determinadas influências extraordinárias.
Hoje, essa passagem merece especial cuidado.
Não é adequado utilizá-la como uma descrição científica atual sobre a natureza dos cometas.
O valor do estudo, para nossa série, está também em aprender que uma obra do século XIX precisa ser lida levando em consideração a linguagem e os conhecimentos disponíveis em sua época.
Isso não diminui sua importância filosófica e moral.
Ao contrário, ajuda-nos a estudá-la com maturidade.
Mundos também passam por transformações
A questão 41 traz outra ideia interessante.
Kardec pergunta:
Um mundo completamente formado pode desaparecer e sua matéria voltar a se dispersar no espaço?
A resposta é afirmativa e acrescenta uma imagem:
Deus renova os mundos como renova os seres vivos.
Dentro da concepção apresentada pela obra, a Criação não aparece como algo imóvel.
Existe movimento.
Transformação.
Formação.
Desaparecimento.
Renovação.
Essa visão nos lembra de algo que observamos constantemente em nossa própria experiência:
a transformação faz parte da vida.
Temos dificuldade de aceitar aquilo que termina
Nós gostamos de estabilidade.
Queremos que determinadas coisas permaneçam exatamente como estão.
Relacionamentos.
Situações.
Corpo.
Juventude.
Rotinas.
Instituições.
Posses.
Mas a existência material é marcada por transformações.
Algumas são suaves.
Outras dolorosas.
Há coisas que nascem.
Crescem.
Cumprem sua função.
E terminam.
Até mesmo na visão cosmológica apresentada por Kardec, mundos não são necessariamente estruturas eternamente imóveis.
Se até os mundos passam por processos de transformação, por que imaginaríamos que nossa experiência material individual permaneceria sempre igual?
Renovação não é necessariamente destruição
Quando alguma coisa termina, geralmente usamos uma linguagem negativa:
“Perdi.”
“Acabou.”
“Foi destruído.”
E, muitas vezes, realmente existe perda e dor.
Mas nem toda transformação significa ausência de continuidade.
Uma etapa pode terminar para que outra comece.
Isso acontece constantemente.
A criança desaparece para dar lugar ao adulto — não no sentido de deixar de existir, mas de se transformar.
Uma experiência profissional termina e outra pode começar.
Uma ideia antiga pode ser abandonada para que uma compreensão melhor surja.
Um comportamento precisa morrer dentro de nós para que uma virtude possa nascer.
Talvez o conceito de renovação também possa ser aplicado à vida espiritual.
Quantas coisas precisam ser renovadas dentro de nós?
Essa é uma pergunta muito mais próxima do que a formação de mundos distantes.
Talvez não consigamos compreender todos os mecanismos da Criação cósmica.
Mas conseguimos reconhecer algumas necessidades de renovação pessoal.
Há pensamentos que já não nos fazem bem.
Há hábitos que precisam ser revistos.
Há mágoas que carregamos há anos.
Há preconceitos que talvez tenhamos aprendido e nunca questionado.
Há maneiras de reagir que produzem sofrimento para nós e para os outros.
A Criação apresentada por Kardec é dinâmica.
E nós também somos chamados ao movimento.
Espírito que evolui é Espírito que se transforma.
Quanto tempo demorou a formação da Terra?
Na questão 42, Kardec pergunta quanto tempo dura a formação dos mundos e cita especificamente a Terra.
A resposta é muito significativa:
não apresenta uma data.
Não apresenta um número.
Não oferece uma cronologia supostamente revelada.
Pelo contrário.
Afirma que não poderia dizer e critica a pretensão de quem desejasse estabelecer com certeza aquilo que não possuía condições de conhecer.
Essa passagem é especialmente importante para nosso estudo.
Ela estabelece um limite.
E limites também ensinam.
Nem toda pergunta precisa receber uma revelação espiritual
Existe uma tendência, em alguns ambientes espiritualistas, de procurar respostas mediúnicas para todo tipo de questão.
Quantos anos tem exatamente determinada realidade espiritual?
Como aconteceu determinado fenômeno cósmico?
Em qual planeta isso ocorreu?
Em que data?
Qual foi o nome?
Qual era a quantidade?
Mas a questão 42 nos oferece uma lição de prudência.
Nem tudo precisa ser respondido por uma revelação.
Existem assuntos que cabem à investigação humana.
Outros permanecem além daquilo que podemos conhecer atualmente.
E isso não deveria diminuir nossa fé.
Deveria aumentar nossa humildade.
Deus não precisa caber em nossas cronologias
Muitas discussões religiosas nasceram da tentativa de transformar linguagem simbólica em cronologia rígida.
Mas a grandeza da Criação não depende de encaixarmos Deus em calendários humanos.
Em A Gênese, Kardec desenvolveria posteriormente uma visão de uma Criação muito mais ampla, com sucessão de mundos e transformações ocorrendo através de períodos que ultrapassam enormemente nossa experiência individual.
Uma das imagens apresentadas nessa obra é particularmente bela:
quando imaginamos períodos imensos, nosso planeta deixa de parecer contemporâneo da própria Criação.
Muito já teria existido antes de nós.
Muito poderá existir depois.
Isso nos ensina novamente:
não somos o centro do Universo.
E isso muda alguma coisa na nossa vida?
Muda, se permitirmos.
Porque grande parte de nossos conflitos nasce de uma visão muito estreita.
Achamos que:
tudo precisa acontecer no nosso tempo;
tudo precisa seguir nossos planos;
as pessoas precisam mudar quando desejamos;
as respostas precisam chegar imediatamente;
nossa compreensão atual precisa estar correta para sempre.
Mas a Criação nos fala de processos.
O Espírito também vive processos.
Há amadurecimentos que levam tempo.
Há mudanças que não podem ser impostas.
Há sementes que precisam germinar.
Há aprendizagens que atravessam etapas.
Talvez uma das formas de confiar em Deus seja aprender a respeitar processos.
Nem antecipar, nem desistir
Isso não significa passividade.
Quem planta precisa cuidar.
Quem deseja mudar precisa trabalhar.
Quem erra precisa reparar.
Quem sofre deve procurar ajuda quando necessário.
Quem deseja aprender precisa estudar.
Confiar no tempo não significa cruzar os braços.
Significa fazer nossa parte sem exigir que toda transformação aconteça imediatamente.
Nós costumamos olhar para nós mesmos e dizer:
“Eu já deveria ter superado isso.”
Talvez sim, em alguns casos.
Mas culpa excessiva também não transforma.
O caminho mais saudável é perguntar:
“Qual é o próximo passo possível?”
E caminhar.
Jesus nos ensina o valor do processo
O Evangelho é profundamente pedagógico.
Jesus não exigia que seus discípulos se tornassem perfeitos de um dia para o outro.
Eles erravam.
Discutiam.
Tinham medo.
Não compreendiam.
Pedro negou.
Tomé duvidou.
E ainda assim o Mestre continuou ensinando.
Isso não significa relativizar o erro.
Significa compreender que a educação do Espírito acontece através de experiências, escolhas, quedas, correções e recomeços.
Talvez Deus trabalhe conosco com uma paciência que ainda precisamos aprender a ter uns com os outros.
Ramatís e a Criação como processo
Em A Missão do Espiritismo, Ramatís também aborda a narrativa da Criação e chama atenção para a necessidade de compreendê-la para além de uma leitura literal.
Ao falar dos chamados “dias” da Gênese, relaciona-os a longos períodos, destacando a ideia de que as coisas surgem gradativamente.
Independentemente das formulações cosmológicas específicas utilizadas na obra, existe aí uma reflexão valiosa:
a Criação é apresentada como processo, não como improvisação.
E processos exigem tempo.
Talvez possamos aplicar essa mesma paciência à construção de nós mesmos.
Você também está em formação
Às vezes olhamos para nossas imperfeições e desanimamos.
“Depois de tantos anos, ainda sinto isso.”
“Ainda tenho dificuldade para perdoar.”
“Ainda sou impaciente.”
“Ainda tenho medo.”
Reconhecer nossas imperfeições é necessário.
Mas não devemos confundir estar em construção com estar condenado a permanecer como somos.
O Espírito não está pronto.
Está se fazendo.
Está aprendendo.
Está desenvolvendo consciência.
E cada decisão no bem participa dessa construção.
O que estamos criando diariamente?
Existe ainda outra pergunta que nasce naturalmente deste estudo.
Falamos sobre Deus como Criador.
E nós?
Também criamos, dentro dos limites que nos são próprios.
Criamos ambientes através de nossas atitudes.
Criamos confiança ou insegurança.
Criamos paz ou conflito.
Criamos pontes ou distâncias.
Criamos hábitos.
Criamos consequências.
Uma palavra pode criar esperança.
Outra pode produzir uma ferida.
Um gesto de acolhimento pode modificar um dia inteiro.
Uma atitude de intolerância pode afastar alguém por anos.
Não criamos mundos.
Mas criamos constantemente condições ao nosso redor.
Por isso precisamos perguntar:
O que minhas atitudes estão ajudando a criar?
Um exercício espiritual para hoje
Escolha uma área da sua vida que esteja passando por transformação.
Pode ser:
família;
trabalho;
relacionamento;
saúde;
estudo;
vida espiritual;
ou uma mudança dentro de você.
Pergunte:
Estou respeitando o processo sem deixar de fazer a minha parte?
Depois escolha uma atitude concreta.
Talvez você precise:
ter paciência;
começar algo;
encerrar um hábito;
pedir ajuda;
perdoar;
estudar;
conversar;
ou simplesmente perseverar mais um dia.
Faça aquilo que estiver ao seu alcance.
E confie que grandes transformações também são construídas através de pequenos movimentos.
Quando olhamos para o céu, podemos aprender sobre nós
O estudo da formação dos mundos parece falar apenas de coisas muito distantes.
Mas talvez o Universo funcione também como um grande convite à humildade.
Mundos se formam.
Mundos se transformam.
A matéria muda.
A vida se desenvolve.
E o Espírito segue aprendendo.
Nós também fazemos parte dessa dinâmica.
Não somos obra acabada.
Não precisamos permanecer presos ao que fomos ontem.
Existe sempre possibilidade de renovação.
Para guardar no coração
As questões 37 a 42 nos apresentam uma Criação que tem em Deus sua causa e na transformação uma de suas características.
Mas também nos ensinam algo essencial:
não sabemos tudo.
Podemos estudar.
Investigar.
Comparar.
Perguntar.
E devemos fazê-lo.
Mas sem transformar hipóteses em certezas.
Sem usar a espiritualidade para preencher apressadamente aquilo que ainda desconhecemos.
E sem perder de vista o mais importante.
Talvez não saibamos explicar todos os processos que formaram os mundos.
Mas sabemos alguma coisa sobre o mundo interior que estamos formando todos os dias.
Cada pensamento alimentado.
Cada palavra pronunciada.
Cada decisão tomada.
Cada atitude de amor.
Tudo isso participa da construção do Espírito que estamos nos tornando.
A Criação continua sendo, para nós, um imenso mistério.
Mas nossa renovação já pode começar hoje.
Base doutrinária principal:
Allan Kardec — O Livro dos Espíritos
Parte Primeira — Das Causas Primárias
Capítulo III — Da Criação
Questões 37 a 42 — Formação dos mundos
Leitura complementar:
Allan Kardec — A Gênese
Capítulo VI — Uranografia geral
Estudos sobre a criação e a sucessão dos mundos.
Referência complementar:
Ramatís / Hercílio Maes — A Missão do Espiritismo
Capítulo X — O Espiritismo e a Bíblia — reflexão sobre o caráter alegórico da narrativa bíblica da Criação e sua compreensão em períodos sucessivos.
Nota de estudo:
As explicações cosmológicas presentes nas obras espíritas do século XIX e em obras mediúnicas posteriores devem ser apresentadas dentro de seus respectivos contextos doutrinários e históricos. Não é correto afirmar que correspondem automaticamente aos modelos científicos contemporâneos sem análise específica e fontes científicas adequadas.
Série: O Livro dos Espíritos para a Vida — Episódio 10
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